EU........
E a chuva continua. Fustiga corpos e almas com uma persistência quase cínica, como quem sabe que ninguém a convidou e, mesmo assim, insiste em ficar. Goteja dos telhados, das árvores, dos olhos que olham o céu numa espécie de súplica calada. Já não se trata de um aguaceiro de primavera — é uma teimosia do clima, um estado de espírito atmosférico.
Amanhã, cedo, voltarei ao meu pequeno oásis: a hidroginástica.
Sim, há quem corra para o ginásio, quem se afogue em cafés com espuma decorativa ou quem se atire às planícies digitais da Netflix. Eu mergulho — literal e metaforicamente — na piscina aquecida do clube, onde a água tem a delicadeza de me abraçar por dentro.
É ali que, por breves minutos, esqueço que há mundo lá fora.
Que há chuva. Que há barulho. Que há contas por pagar, políticos a mentir, dores nas articulações. Na água, sou leve. Flutuo — e é como se também flutuassem comigo os pesos mais invisíveis: as saudades, os medos, as perguntas que a vida empurra para debaixo do tapete.
Mas antes de chegar lá, há o caminho.
E nesse caminho, dou por mim a “conversar” com os meus companheiros habituais: os cães da Alameda. Uns mais pachorrentos, outros decididamente energéticos, de cauda ao alto e olhar de desafio.
Estão todos — como eu — a precisar de um solinho bom. Um raio quente, que se infiltre por entre as nuvens e aqueça os ossos e o pêlo. Que seque a relva onde rebolam, como se o mundo fosse só aquele momento em que perseguem uma bola perdida ou uma pomba distraída.
Eles não reclamam. Vivem.
E é nesse detalhe que me ensinam mais do que mil livros.
Olho para eles, os fiéis, os sujos de terra e ternura, e penso que talvez seja isso que falta aos humanos em dias de chuva: saber correr mesmo molhados. Rebolar mesmo com lama. E seguir, de rabo a abanar, atrás da alegria mais pequena.
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